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UNIVERSIDADE  FEDERAL  DO  MARANHÃO
DEPARTAMENTO  DE  FILOSOFIA

O Intuicionismo-emocional em Max Scheller 

Elza Maria Brito Patrício
Profª. Assistente do Dep. de Filosofia da UFMA  

O reconhecimento do caráter intencional – fenomenológico da consciência, proposto por Husserl, foi admitido e empregado por Max Scheler (1847-1928), na sua análise das emoções, ou seja, no Intucionismo – concepção scheleriana, segundo o qual os valores são objetos de uma intuição que assemelha ao sentir-intencional.

"A Fenomenologia, pois, está orientada a fatos e não a construções, e, por conseguinte, se baseia na experiência. Com efeito, a atitude fenomenológica não é m método de pensar (indução, dedução), senão, um procedimento de intuição, que capta os fatos antes de toda fixação lógica. Essa intuição não é de uma observação empírica nem uma investigação tal como a faz o científico, senão que no ato vivenciante ou intuído".(1) Max Scheler encontrou também os princípios de uma análise da vivência do valor, que posteriormente foi desenvolvida na sua filosofia própria dos valores.

A concepção filosófica de Scheler é esboçada entre o espiritual e o emocional por um lado, ao campo do conhecimento estende-se processos intelectivos e funções cognoscitivas; por outro lado uma série de fenômenos sobretudo emocionais, permitem o conhecimento de valores. Daí surgir a tarefa de uma Fenomenologia dos Sentimentos; uma nova fase, portanto, em que Max Scheler faz uma proposta de mudança do próprio conceito de Fenomenologia, numa ampliação do projeto originário que não prevê a colocação do dado emocional, exaurindo-se na redução husserliana que se apresenta como um processo de natureza eminentemente racional.

Scheler partiu da observação de que ao longo de todo o crescimento do homem e do mundo, através da História, o desenvolvimento da razão, apenas, jamais comprova absolutamente o aperfeiçoamento do espírito humano.

O enriquecimento constante se dá na diversidade das culturas que podem propiciar um conhecimento mais amplo do mundo das essências através da cooperação dos homens, num todo, em suas atividades espirituais.

Assim sendo, Scheler considera que os dados fenomenológicos são constituídos não somente pelas essências inteligíveis, todavia, de igual modo, se constituem pelas essências alógicas, impenetráveis pela razão, por valores e suas relações independentes do sujeito, por essências objetivas captadas pela razão como espécie de matéria que os objetos têm por suporte.

Reconhecer, ainda, que esses dados não se referem à pura materialidade – comunente falando – ou seja, não se confundem com as propriedades pertinentes ao ser. Se assim fosse, não seria admissível uma experiência procede do caráter do objeto e afirma uma modalidade do próprio estado-de-coisa.

O caminho que nos dá acesso a esses dados, é precisamente o método da redução fenomenológica que não se restringe a uma instância puramente teórica, como fez Husserl.

Significa dizer que Scheler não pôs de lado a existência mesma do mundo e da realidade das coisas. - Simplesmente abstraiu de todos os modos da existência contigente e de todas as condições individuais do ato, sem levar em conta a posição da realidade que na intuição natural ou da ciência vai relacionada à percepção ou representação de uma coisa.

Segundo afirma J. Llambis de Azevedo, "O procedimento de redução é pois, como a operação de pelar uma fruta, de despojá-la da casca e também da polpa, até chegar ao caroço, que viria a ser o equivalente da essência. (...) Consiste, portanto, em reduzir a existência e em deixar livre a essência, e esto tanto com respeito ao objeto como com respeito ao portador do ato"(2)

O mundo, para Scheler, deve ser desrealizado, deve-se operar uma constante desimbolização desse mundo, a fim de que possa ser captado como essência.

Por outro lado, admite que o ato internacional que apreende o objeto abstrai-se do conjunto psicofísico que constitui a vida de cada homem, em particular: tudo o que cerceia o espírito deve ser suprido, a fim de que a apreensão puramente espiritual possa alcançar sua plena expressão.

A estrutura do mudo e a do espírito, formam uma conexão essencial em todas as suas partes, de modo que a estrutura do mundo não é uma formação do espírito, senão que ambas formam uma correspondência. ". . . Scheler fala aqui de ‘impressão de realidade’: de nenhuma maneira significa que para ele, a realidade concreta, existente, consista só no mero ser correlato do impulso vital; como tampouco a essência não consiste no simples ser correlato da intuição espiritual. Contudo, assim como pertence ao mundo das essências o poder dar-se somente ao ato espiritual (como a cor, por essência, só se dá como tal à função do ‘Ver’), de igual maneira, pertence à natureza do "zufalligen Jetzt-Hier-So", o poder dar-se somente como resistência a um impulso vital"(3).

Pode-se afirmar que a experiência fenomenológica nos revela uma certa relação entre o espiritual e o vital.

A essência é-nos dada diretamente presente à consciência, pela imediatividade do objeto e não por intermédio de símbolos, de conceitos intelectivos, de formas abstratas.

"Frente ao mero observar, o enfoque fenomenológico busca a contemplação da essência dada em uma vivência imediata das coisas que se auto-entregam ao ato espiritual"(4).

Diferentemente de Husserl, por conseguinte, o resíduo fenomenológico da redução proposta por Max Scheler – não é absolutamente a consciência pura – é sim "... o mundo das essências e suas correlações essenciais que possuem um modo de ser positivo e independente da realidade empírica, como um ‘em si’ ontológico, cuja significação e princípios sirvam de modelo e guia aos fatos do mundo natural. Scheler incide, pois, em um certo (...) intuicionismo das essências"(5).

Diremos que ele adota as essências, como fatos fenomenológicos, que embora revestidos do caráter de universalidade, em vez de serem abstratos, são concretos tanto que há alguns filósofos que as denominam de "universais concretos". Consequentemente, esses fatos são considerados puros e o seu conteúdo são os FENÔMENOS.

Com efeito, segundo ele, fenômeno não é o aparente, não é a aparição, apenas. FENÔMENO é, pois, o a priori, isto é, toda relação essencial que chegue por si mesma a um dado, e experiência, em vez de ser forma imposta rigorosamente à experiência.

Daí podemos falar na importância da experiência fenomenológica, que reside no seguinte: – em que nada é visado que não seja dado e nada é dado fora do visado, naturalmente.

Significa dizer que, se algo é pensado é porque antes, constituiu um dado existencial; ao mesmo tempo que, se podemos nos referir a algo dado, é certo que a sua autonomia na realidade, faz parte do pensado.

Vejamos um exemplo:

"O que é cor, ou espaço, ou vida, não pode obter-se por observação, porém, sim, que tal coisa determinada tem tal cor, ou tal forma geométrica ou que este animal é quadrúpede. A observação de um círculo de objetos somente é possível se já temos intuído a essência desses objetos. Por sua vez, a essência se distingue do mero conceito".(6)

Reforçando ainda mais:

Se o a priori é algo dado em uma intuição, não devemos equipará-lo com o construído pela razão, simplesmente, tanto é que os conceitos de coisas, real, peso, igualdade, movimento, gravidade, número, tempo, etc., devem ter um dado da intuição, pois o pensar não pode criá-los do nada.

A fenomenologia do valor e a fenomenologia da vida emocional, hão de considerar-se como um domínio de objetos e investigações inteiramente autônomo e independente da lógica.

O "a priori" scheleriano, é, portanto, "um conteúdo essencial do conhecimento que nos direciona ao conteúdo absoluto do ser e do valor do mundo, posto que já não tem razão para a separação radical entre a coisa em si e o fenômeno"(7).

O "a priori" é considerado como conteúdo essencial dado na intuição que é também uma experiência – como já o dissemos – e não uma criação do espírito.

Como o que Scheler tratou, de modo especial foi das essênciais-valores, vejamos o que nos diz Teofilo Urdañoz:

"Os valores ou essências axiológicas são dados, como as demais essências em uma intuição imediata e evidente. Seu conteúdo do intuitivo se refere, sem dúvida, aos fatos da experiências e que são indefiníveis porque se pressupõe a uma definição ou delimitação conceitual"(8).

Confirma-se, por certo, que os valores são descobertos pela experiência fenomenológica, que é a priori no sentido de que não se conhecem pela experiência sensível ou observação empírica e se subtraem a todo procedimento de indução.

A experiência fenomenológica dos valores, ainda que concernente a conteúdos intuitivos imediatos, difere essencialmente da intuição das restantes essências eidéticas ou racionais.

Os valores, por conseguinte, não pertencem ao domínio do pensado, nem são captados por uma intuição racional.

O mundo dos valores possui uma objetividade igual a das essências e é, como elas, um "a priori" material, suscetível de apreensão relações e conexões.

Tais qualidades axiológicas diferem das demais qualidades, propriedades ou força das coisas, não pertencentes à esfera do valor. Elas se distinguem tanto das coisas mesmas como dos bens fundados nelas, os quais são chamados portadores dos valores, sejam pessoas, coisas o ações.

É, portanto, em um âmbito onde só o espírito pode ter acesso, que os valores existem e podem ser captados. O suporte é tão somente, a ocasião para a captação dos valores, a qual é decorrente da percepção emocional e se funda num "a priori" emocional.

Scheler, admite um mundo de experiências, cujos objetos são inacessíveis ao entendimento e possíveis de conhecimento e possíveis de conhecimento por via da intuição emocional que possibilita ao homem alcance das realidades objetivas – os valores. Ele crê, efetivamente, que ao lado de uma lógica da razão há a lógica da vida emocional que fundamenta o conhecimento apriorístico dos valores ou "uma teoria pura do valor", pois as leis e correlação essenciais escapam às leis da lógica.

Esclarece, no entanto, que toda e qualquer noção de valor, evidencia, tanto uma faculdade (intuito-emocional), capaz de apreensão e vivência do valor, como uma realidade possível de ser modificada em função do valor. Trata-se, pois, do sistema filosófico de Max Scheler denominado "Intuicionismo emocional".
BIBLIOGRAFIA

1) Juan Llambias de Azevedo, Ed. Nova, Buenos Aires, 1965, p. 25
2) Ibid., p. 26
3) Ibid., p.p. 74 e75
4) Hector Delfor Mandrioni, Max Scheler, Intinerarium, Buenos Aires, 1965, p. 65
5)Teofilo Urdañoz, O. P., História de La Filosofia, Édica, Madrid, 1978, p. 422
6) Juan Llambias de Azevedo – Op. cit., p.37
7) Ibid., p. 32
8) Teofilo Urdañoz, O. P., p.p. 426 e 427 


Trabalho publicado na revista Filosofia em Revista 86.5